segunda-feira, 18 de maio de 2009

TENTÁCULOS

Abri minha boca pra você e disse:
Sopra, vamos, sopra
Você veio vindo:
Não entendo o que quer com isso
Sopra você aqui dentro
E vou ficar preso aí ?
Só quero seu sopro
Mas eu sou meu sopro

Ah... então

Ofereci meus ouvidos a você e disse:
Fala, vamos, me fala
Você veio vindo:
Não entendo o que quer com isso
Sorverei idéias
Mas, por que?
Só converse
Não posso, eu sou minha idéia

Ah... então

Ofereci meu corpo a você e disse:
Pega, vamos, me pega
Você veio correndo:
Hum... isso eu entendo
Sopra aqui dentro
Sim.. sim...
Fala... me fala...
Falo sim, falo o que quiser

Ah... então...

Adeus
Não quero só tentáculos


"Quem se recusa o prazer, quem se faz de monge, em qualquer sentido, é porque tem uma capacidade enorme para o prazer, uma capacidade perigosa - daí um temor maior ainda. Só quem guarda as armas a chave é quem receia atirar sobre todos."

Clarice Lispector - em "Perto do Coração Selvagem"
"Aquele que não espera o inesperado não o encontra".

Heráclito

domingo, 17 de maio de 2009

Pra pensar

O MESTRE E A DISCÍPULA
III - Os desejos-

É tão difícil descobrir o que queremos de verdade...
- Sim, é verdade, filha.
- Mestre? Quando descobriu seus desejos, o que fez?
- Realizei-os.
- Oh, todos?
- Sim, praticamente.
- Mas isso não é pecado?
- Alguns sim.
- Não entendo então.
- Agora eu sei o que cada um era. Mas antes, não.
- E isso lhe desculpa por ter sido tão leviano?
- Sim.
- Mestre!
- Que quer, meus desejos eram meus tesouros!
- Mestre!
- Filha querida, vejo que a escandalizo...
- Confesso que sim.
- E por que exatamente?
- Nunca pensei que alguém pudesse falar sobre isso com tanta naturalidade, ainda mais você Mestre.
- Esperava o que?
- Mais discrição e até o silêncio sobre esse assunto.
- Sim?
- Era isso que esperava de você.
- Isso convém a um sábio, não ?
- Está claro que sim.
- É assim que você deseja ser no futuro?
- Sim, Mestre. Desculpe se estou sendo grosseira. Sabe o quanto o amo, mas...
- Eu a decepcionei, ahn?
- Não, Mestre...
- Fale, não me aborrecerei...
- É que sempre foi a personificação da bondade e do equilíbrio para mim...
- E no que mudei?
- Foram essas suas confissões que me espantaram...
- Não fiz confissão alguma...
- Fez sim! Sobre os seus desejos!
- Mas isto não é segredo para ninguém aqui.
- Quer dizer que todos sabem?
- Sim.
- Mestre!
- Sim, filha?
- Como pode falar isso assim?
- Você não é alguém a quem amo?
- Mas pode me influenciar negativamente, Mestre. E se eu sair por aí repetindo as coisas que fez?
- Não poderá fazer isso.
- Como não?
- O que fazemos é fruto de nosso próprio desejo e não do desejo do outro.
.- Mas podemos influenciar as pessoas à nossa volta.
- Não quando falamos à verdade.
- Mestre, não compreendo. Mais uma vez fala por enigmas.
- Filha, quando meu tesouro era o dinheiro, busquei-o com todas as forças e fui muito infeliz. Semeei a infelicidade e fiquei só por muito tempo. Esta é a verdade. Daí entendi que o dinheiro tem um valor apenas relativo e nunca mais o desejei como algo vital.
- Mas esta história resumida parece simples. E as pessoas que magoou, isto não poderia ter sido evitado?
- Poderia se soubesse na época o que hoje sei. Mas não antes.
- Mestre, está confundindo minha cabeça. Que diz? Que devemos realizar todos os nossos desejos sem pensar?
- Não, de maneira alguma.
- Mas então não compreendo nada.
- Filha, o desejo que faz sofrer é aquele que nunca é reconhecido e permanece atormentando a alma.
- Mas, quer dizer que quando damos asas à nossos desejos, sejam quais forem, não estamos errando?
- Digo a você, filha, que o desejo em si não é um erro. Erro é nunca reconhecê-lo para que ele se transforme.
- Mas se tiver desejo de matá-lo, aqui, agora, Mestre, devo então realizar isso?
- E tem esse desejo?
- Está claro que não.
- Então por que você se preocupa com isso?
- Mas, Mestre, outras pessoas poderão ter esse desejo de matar.
- E muitas delas matarão.
- Então Mestre! Não acha que esta sua teoria está equivocada?
- E por que?
- Por que não se aplica a todas as situações e a todas as pessoas. Como posso aceitar que devemos saciar nosso desejo, quando o poço fundo de nossa alma pode abrigar estranhas e perigosas vontades?
- E o que acha que devemos fazer em relação a elas?
- Sufocá-las, trancá-las, esquecê-las.
- Sim... compreendo...
- E o que diz sobre isso?
- Temo por toda a pessoa que siga este rumo.
- Serão mais perigosas que as outras que fazem o que desejam?
- Sim, serão.
- Mestre, o que diz? Por que me confunde tanto?
- O assassino mais perigoso é aquele que permanece trancado no porão da alma, porque ele tem tempo para maquinar sua vingança. E quando pode realizá-la o faz com requintes de crueldade.
- E o que mata por impulso, também não é culpado?
- Sim, é. E compreenderá logo isso.
- Mas então?
- O outro, aquele que levedou no porão, teve tempo para convencer-se de que sua natureza é a de um assassino e só com muito custo e sofrimento terá sua paz de volta.
- Perdão, Mestre. Você é um sábio, mas suas palavras são profundas demais para mim.
- Filha, pode me dizer um desejo seu? Um desses bem pecaminosos?
- Mestre!
- Já possui algum que está trancado no porão? Está bem, vamos fazer isso de uma outra maneira. Eu vou contar uma história e você completará na medida em que eu abra espaço na narrativa, está certo?
- Sim...
– falei um tanto desconfiada.
- Era uma vez – começou ele...
– Uma princesa muito tímida. Vivia sozinha e trancada em seus aposentos. Por mais lhe chamassem ela não queria estar com ninguém. Quando estava só ela pensava repetidas vezes em...
- Ahn.. devo continuar a história?
- Sim. Essa é a brincadeira.
- Bem... a princesa pensava repetidas vezes em... em...
- Hum?
- Em um príncipe dos seus sonhos e como ele era bom, sábio, bonito, delicado, perfeito, enfim. Não poderia se casar com nenhum outro diferente daquele que estava em sua mente.
- E a princesinha desejava muito...
- Ela desejava que ele viesse, a raptasse e a levasse para o seu castelo onde seriam felizes para sempre...
- Mas se ela fizesse isso...
- Seus pais sofreriam muito, além de que seria considerada uma perdida...
- É isso que você deseja, filha?
- Eu?!?!

Meu Mestre desconcertou-me.

- Se surgisse um homem como esse da sua imaginação, se ele existisse, você partiria com ele?
- Não! Isso não seria certo!
- E por que?
- Porque aqui, em reclusão, me tornarei uma pessoa equilibrada e sábia. E lá, no mundo, eu seria apenas uma mulher como tantas outras...
- Então supõe que a sabedoria vem a você por um único caminho? Já pensou filha, que quando você se fecha em mau humor e se isola, pode estar amordaçando algo tão bonito quanto a capacidade de amar, gestando uma mulher fria e infeliz?

- Não, Mestre! A sabedoria me ajudará.
- A sabedoria não é amiga da ilusão, filha. Nunca passe por cima do que você é. Pode sentir todos os desejos mais horríveis dentro de você, se não os nega, pode ter chance de transformá-los antes que sejam perniciosos para você e para alguém. Mas se os trancafia dentro de você e finge que eles não estão lá está construindo uma máscara que lhe fará desconhecer-se e amargurar-se para sempre. Ás vezes quando reconhecemos um desejo, não conseguimos evitar de satisfazê-lo. A lei é de progressão e por isso não presenteia a ninguém com uma felicidade que não conquistaram por si mesmos... além disso a mulher que ama trancada no porão poderá se tornar alguém muito perigoso...

- Assim me assusta, Mestre...
- Venha cá minha menina. Deixa que lhe diga o que vejo em seus olhos. Você é uma bonita mulher, tem sonhos que acha lindos e outros que computa como desejos... uma mulher e um homem juntos geram emoções magníficas e isto não pode ser pecado...
- Mestre, mas é assim que meus pais ensinaram-me a pensar. Que é pecado as coisas do amor carnal.
- Ah, filha... não creia em tudo o que lhe dizem... se amar em corpo e espírito fosse pernicioso, a vida jamais permitiria que tomássemos um corpo. Ela é sábia... confia naqueles que criou... nós é que aprendemos a desconfiar do que temos em nosso mundo interior... Você é uma mulher... isto é belo... não fuja de nada que seja seu tesouro interior, mesmo que sejam moedas sem valor aos olhos de outras pessoas. Quando souber a diferença entre ouro e cobre, jogue fora o que não é precioso e fique com o que lhe enriqueça por dentro. Mas nunca deixe de visitar o seu baú para saber o que tem lá, nunca...
- Isto me trará problemas, Mestre...
- Trará, filha?
- Vou me sentir solitária aqui...
- Já sente isso a muito tempo, só não tinha consciência... agora talvez seja a hora de lustrar o seu tesouro.
- E como farei isso?
- Tire-o do porão, traga-o à luz do sol, veja bem todos os detalhes dele e depois decida o que a fará mais feliz.
- E se eu escolher o pior caminho?
- Só saberá depois de percorrê-lo.
- E se eu sofrer e fizer sofrer?
- Volte e recomece.
- E se não for digna de perdão?
- Volte para quem a ama de verdade. Aí sempre encontrará o perdão.
- E quem é?
- Isto também terá que descobrir.
- Mestre...
- Sim, filha..
.- Tenho medo...
- Eu também tive muitas vezes e ainda hoje tenho...
- E o que faz então?
- Evoco a beleza do meu coração e confio nela.
- E dá certo?
- Deu certo agora com você...
- Mestre!
- Vamos caminhar um pouco. A tarde está tão amena. Encontrará inspiração para decidir...

E FORAM CAMINHANDO DEVAGAR PELA PLANÍCIE REPLETA DE PEQUENAS FLORES QUE VERGAVAM AO VENTO LEVE.

- Filha..? Por acaso não está pensando em matar alguém, está?
- Mestre!

SORRI COM SUA BRINCADEIRA E ELE TAMBÉM SORRIU.
MEU MESTRE TINHA FELICIDADE POR EXISTIR E UMA CONFIANÇA IMENSA NAS PESSOAS.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Cantar, cantar



MInha Flor (Letra de música)


Vá cantar, minha flor, cantar


Não espere ouro ou compreensão


Não espere nada não


Cante por cantar, seja onde for


Cante por sorrir


Cante por chorar


Cante para si


Quando ninguém mais escutar


Vou estender a minha mão


Sobre o seu coração


Vá cantar, minha flor


Vá cantar por amor!




(recadinho que recebi...)

terça-feira, 5 de maio de 2009

Rede


Terra, chamando Terra.

Terra, chamando Terra.

Quem me escuta, quem me escuta?

Pessoas amáveis, na escuta?

Câmbio.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

palavrório

Palavrório



Coisa perigosa é essa de descer o pensamento pela boca
Feito cachoeira
Se chove na cabeceira
Vem a força do rompante
E não deixa pedra sobre pedra
Na mente do ouvinte

Quero me embrenhar no mato
Pra falar com grilos e cigarras
Que ao final têm idéias muito boas
Sobre onde achar o que se coma
E quando vem o sol de frente
Coisa mais importante é saber
Das folhas verdes para grilo
E é bom não se enganar sobre o assunto
Porque vai que dá um rolo digestivo
E vire bugalho o alho

Mas sem palavrório
Porque grilos, cigarras e o que os valha
São de pouco papo e muito siso
Enquanto as pedras rolam boca a baixo
Uma canta e outro salta
Ou sejam vivem

sábado, 31 de janeiro de 2009

NASCER DE NOVO




Nascer de novo




De um susto se nasce de novo
De amor, de manhãzinha
Se nasce de um poema no muro
De nuvem no céu espiada
Se nasce de novo dum corte
Por milagre que pareça
Se nasce ainda depois
Da fruta mordida no chão esquecida
Nasce de novo o sabor
Num futuro imprevisto
Se nasce do que não é visto
De um inesperado sonho
Que aparece em noite escura
Se nasce de novo num canto
De uma perdida esperança
Que de tanto nascer de novo
De esperar nunca se cansa

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Mais nada


Mais nada






Calei
Não tenho mais o que dizer
Sou o próprio silêncio
Parado na esquina
Esperando o que há de vir

Cansei
Não quero mesmo fazer nada
Inventar palavras belas
Frases feitas de efeito
Para conquistar a massa

Quero estar ao léu
Ao vento do acaso
Nas asas da surpresa
Um inesperado puro

Quero não pensar em tudo
Fazer planos por segundo
Calcular passo por passo
Pra poder ganhar o mundo

O que quero é companhia
O que quero é poesia
Ser uma pessoa comum

Eu preciso respirar
De um céu azul pra voar
De espaço pra dançar
De pisar o chão descalço

Beber chuva, comer vento
Dormir sob a luz da lua
E uma rede na varanda
Para não pensar no tempo