sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Manoel de Barros

Sou um sujeito cheio de recantos.

Os desvãos me constam.

Tem hora leio avencas.

Tem hora, Proust.

Ouço aves e Beethovens.

Gosto de Bola-sete e Charles Chaplin.

O dia vai morrer aberto em mim."

Procura-se um poeta

Um poeta.
Procuro um poeta.
Não se pode mais falar aos homens.
Enquanto falamos eles olham nossas... bem.
Não se pode mais falar.
Quero conversar de lua e cavalheiros andantes.
Só poetas falam a linguagem das abelhas.
Eles têm o mel...
Eles têm as flores que ainda vão nascer!
Quero contar que sonhei
E no meu sonho éramos namorados
E estava tudo dito nos olhos.
Amávamos nossos corpos
Trocávamos nossa alma
porque assim deve ser.
NO meu sonho
Éramos água morna no centro da Terra...
Sabe?
O dia nasceu lá fora.
Faz tempo que acordei e continuo sonhando.
Será que poetas existem?
Para ele eu abriria meus olhos no meio da noite
E o veria dormindo.
E quando acordasse, pela amanhã.
Teria muito amor para oferecer...

Só os poetas amam
Quando o sol dispara a ordem de viver.
Só os poetas não se importam
Em brincar de Romeu e Julieta
Segunda-feira de manhã...

Pó de estrada

Te aproveitarás de minha inocência
Até que eu compreenda a hora do não
A hora do fim
O adeus para nunca mais

Depois serei pó de estrada em teus olhos
Daquele que ninguém vê
E nem pode deter
Mas que faz chorar

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Pele Viva

Pele viva

Abro mão de reter
Corpos estranhos
Que não são meus
Abro mão de parecer
Que sou um deus

Caia essa pele maquiada
Que não sente nada
Quando a tocam
Tão esvaziada
Sem coração

Deixo vir à luz do sol
Minha fissura
A face oculta
Quente e rubra
Da escuridão

Nasça flor pequena
Exuberante ou louca
Mergulhe inteira no prazer
Do ser
Não ser

Hoje surja uma pele viva
Ácidos, fluidos
Borboleta
E num qualquer dia lindo
Que eu morra sorrindo

domingo, 26 de julho de 2009

Por não estarem distraídos

Por não estarem distraídosHavia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

domingo, 19 de julho de 2009

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim é multidão:
outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera:
outra parte delira.
Uma parte de mim almoça e janta:

outra parte se espanta.
Uma parte de mim é permanente:
outra parte se sabe de repente.
Uma parte de mim é só vertigem:
outra parte, linguagem.
Traduzir-se uma parte na outra parte
- que é uma questão de vida ou morte -
será arte?


Ferreira Gullar

DIAMANTE

(Antônio Cícero)

O amor seria fogo ou ar em movimento, chama ao vento;
e no entanto é tão duro amar este amor que o seu elemento deve ser terra:
diamante, já que dura e fura e tortura e fica tanto mais brilhante
quanto mais se atrita, e fulgura,
ao que parece, para sempre:
e às vezes volta a ser carvão
a rutilar incandescente
onde é mais funda a escuridão;
e volta indecente esplendor
e loucura e tesão e dor.

agora sei

Eu a vi enfim e de repente
Ela que tanto escondeu o rosto
E me arranhava em seus espinhos
Sem saber aonde estava
Tateando no escuro
Das esquinas de meu peito

Eu a vi
Era domingo de manhã
Cansada estava e me olhou
Entregue dessa vez
Chorava o desconsolo
E já não tinha raiva ou medo

Eu também chorei
Porque eu desejei tanto consolar
E não sabia como
Agora sei

Minha tristeza
Flor dos meus olhos
Vai enfim dormir e sonhar
Minha tristeza
Metamorfoseou
Tão delicadamente
Ganhou asas e voou

Flor de beijos

Ah, flor de beijos
Flor de beijos
Quando o sol surge no céu
Ela inicia seus pedidos:
Beija-flor!
Beija-flor!

Ah, tão macia
Tão macia
Dá-se ao vento por inteira
Nada teme à luz do dia
E em seu orgasmo
Vira pólen