sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Proust

"As vezes uma idéia toma conta de mim:
começo a escrutar longamente o corpo amado. Escrutar quer dizer vasculhar:
vasculho o corpo do outro, como se quisesse ver o que tem dentro, como se a causa mecânica do meu desejo estivesse no corpo adverso - pareço estes garotos que desmontam um despertador para saber o que é o tempo..."

Letra de música

Música Nenhuma
(MariMari)
Quando sinto dor tamanha, canto
Se a solidão me encanta, finjo
Me escondo atrás da nuvem de fumaça
E fico nua, mas ninguém me vê.
Quem há de ouvir senão seu próprio canto?
Quem há de fingir outra solidão
Que não a sua?
E qual mão vai abrir a cortina
E ver-me dançar ao som
De música nenhuma?

Manoel de Barros

A voz de meu avô arfa. Estava com um livro debaixo dos olhos. Vô! o livro está de cabeça pra baixo. Estou deslendo.

Série Textos antigos

Quadro impressionista



Eu escutei imagens
Em seus olhos mudos
Eu estendi um gesto em sua direção
Achei que era gesto
O tremor de sua mão

São sempre tristes
As manhãs seguintes
Em que vejo claro
O que não existe

O que aconteceu
É que a poesia
Pintou um quadro
E era bem impressionista

Não foi você que eu vi
E nem seus olhos me olharam
È que sempre sonho realidades
Depois acordo as desilusões

Série: Textos antigos

Carta de Adeus


Tuas palavras
Me vieram longíquas
Cruas como o ponto final numa carta de adeus.
Tuas palavras...
Uma sequência incrível de cortes em minha alma...

Como posso suportar todas essas frases
Que incessantes voltam ao meu ouvido?
Tuas palavras
Saíam de ti, tão tuas
Como se fosse natural dizer:
Não te quero!

É estranho que eu fique à espreita
Sugando as palavras
Letra por letra
E elas chicoteiam minha cara
Que é pra ver se eu consigo
Viver bem sem palavra alguma.

Série "Textos antigos"

Eu quero minha vida de volta.
Quero toda ela, que trancada está em minha garganta.
Quem me impede de deixar voar meus fantasmas boca à fora?
Quem proíbe rasgar meus ódios
e jogá-los em setas venenosas ao vento?
Quero todos os meus gritos.
Todos os impropérios de anos à fio!
Vomitá-los todos
Na cara dos que me olham e nada vêem
(não querem ver, dizem não ver).
Pisar à garganta dos leões famintos
Que me devoram
E não perdoam minha ternura.
Quero chutá-los de minha vida com tal ira
Que sejam expulsos do mundo, da órbita, do caos...
Vou negar-lhes até o nada
E riscar-lhes da memória.
E depois,
Saciado todo o meu desejo de gritar,
Vou guardá-los junto ao pó inútil
Das histórias perdidas para sempre.

Manoel de Barros

Sou um sujeito cheio de recantos.

Os desvãos me constam.

Tem hora leio avencas.

Tem hora, Proust.

Ouço aves e Beethovens.

Gosto de Bola-sete e Charles Chaplin.

O dia vai morrer aberto em mim."

Procura-se um poeta

Um poeta.
Procuro um poeta.
Não se pode mais falar aos homens.
Enquanto falamos eles olham nossas... bem.
Não se pode mais falar.
Quero conversar de lua e cavalheiros andantes.
Só poetas falam a linguagem das abelhas.
Eles têm o mel...
Eles têm as flores que ainda vão nascer!
Quero contar que sonhei
E no meu sonho éramos namorados
E estava tudo dito nos olhos.
Amávamos nossos corpos
Trocávamos nossa alma
porque assim deve ser.
NO meu sonho
Éramos água morna no centro da Terra...
Sabe?
O dia nasceu lá fora.
Faz tempo que acordei e continuo sonhando.
Será que poetas existem?
Para ele eu abriria meus olhos no meio da noite
E o veria dormindo.
E quando acordasse, pela amanhã.
Teria muito amor para oferecer...

Só os poetas amam
Quando o sol dispara a ordem de viver.
Só os poetas não se importam
Em brincar de Romeu e Julieta
Segunda-feira de manhã...

Pó de estrada

Te aproveitarás de minha inocência
Até que eu compreenda a hora do não
A hora do fim
O adeus para nunca mais

Depois serei pó de estrada em teus olhos
Daquele que ninguém vê
E nem pode deter
Mas que faz chorar

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Pele Viva

Pele viva

Abro mão de reter
Corpos estranhos
Que não são meus
Abro mão de parecer
Que sou um deus

Caia essa pele maquiada
Que não sente nada
Quando a tocam
Tão esvaziada
Sem coração

Deixo vir à luz do sol
Minha fissura
A face oculta
Quente e rubra
Da escuridão

Nasça flor pequena
Exuberante ou louca
Mergulhe inteira no prazer
Do ser
Não ser

Hoje surja uma pele viva
Ácidos, fluidos
Borboleta
E num qualquer dia lindo
Que eu morra sorrindo