segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Buquê

Buquê



Não mais confissões de culpa
Alma aberta ao julgamento público
Livro da vida escancarado
Para quem quiser ler

Os mistérios particulares
Estejam claros
Tudo revelado no espelho
Diante de meus olhos

Apenas eu
Nua
Tocando meus segredos
Como pétalas de flor
Flor pequena do caminho
Flor rara da montanha
Maria sem vergonha
No meio da estrada

Nos Alpes intocada
No centro da floresta
Vitória régia
Flor da noite no jardim


Todas eu
Nuances da vida que carrego
Na pele, no centro
Submersas ou não

Todas ali dispostas
Ao querer e a nada mais
Abrindo-se ao sol do meu olhar
Sem medo nenhum de existir

A quem me darei vitória régia?
A quem maria sem vergonha?
Quem me tocará flor da noite?
Quem virgem na montanha?

Quem me virá sol
E me espalhará vento
No campo imenso
Das inúmeras possibilidades?

Eu me virei sol
E me espalharei vento
E serei um campo imenso
Onde me colherei buquê

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

o sonho


(Sebastião da Gama )


Pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos, pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.

Basta a esperança naquilo que talvez não teremos.

Basta que a alma demos, com a mesma alegria,

ao que desconhecemos e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?

Partimos.

Vamos.

Somos.


(esse poema nos foi enviado por Guilherme Medina)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

OLhos azuis da morena triste


Mari Mari

Velhos Brasões

Olho de longe
Do outro lado do arquipélago
A bandeira tremulando
O brasão de prosa e poesia
O hino tocado em viola
Seu território
Tudo para desbravar
Mas com moderna capital

Eu no alto do monte
De minha cercada ilha
Feita de prosa e poesia
Bandeira a meio pau
Por uma perda a mais
Fúnebres costumes
Que talvez eu vá romper
Mas por enquanto não

Ilhas e ilhas
E para nós tanto faz
Nascemos assim
Fechados em concha
Fincando bandeiras
Marcados à ferro
Pelo orgulho e loucura
Dos velhos brasões

Pensar é transgredir - Lya Luft

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos. Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido. Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo. Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!" O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação. Sem ter programado, a gente pára pra pensar. Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se. Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida. Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar. Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo. Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos. Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada. Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado. Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança. Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade. Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for. E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Certa Incerteza

Sempre que estou em silêncio
Vem alguém e pergunta porque
E eu que não tenho certezas
Penso com incerteza escancarada:
A única coisa que eu sei
É que estou em silêncio
Mais nada
Minha boca está fechada
E daqui não sai palavra

E se alguém insistente quer saber
Mas, sem palavras, por que?
Penso com a certeza que ignora:
Não sei...
Acho que foram embora...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Arrasto as correntes ou as correntes me arrastam?

Amarradas em meus pés lá estão elas.
Pesadas correntes que me dão cansaço demais.
De perto vejo que os cadeados estão abertos e me espanto.
Mesmo assim não vou lá me libertar.
Tudo o que faço é cogitar nos porquês.
E para isso não preciso dos pés.

Mais um dia sem meu violão



Mais um dia e a música que brincava em minha mente teve que se recolher.
Cabisbaixa ela não entende. Por que não parei para que ela saísse pelas cordas do violão? Por que não ganhou corpo e vida para entrar por ouvidos nesse mundo de meu Deus?
Ela não entende quando explico sobre ganhar o pão de cada dia. Senta-se lá num canto e murmura baixinho que eu não a amo o suficiente.
Minha canção é uma menina e só queria vir pulando poças e sorrindo até chegar a minha boca.
"É tão simples" - ela me diz: "pare o que está fazendo, pegue o violão e toque! Sem isso, como vou nascer?"
Como explicar a minha música que tenho contas à pagar e que pra quase tudo preciso de dinheiro? Ela nada sabe sobre preço de passagem, sobre custo de vida. Se alimenta de si mesma e só precisa de um instrumento ou de uma voz para sair e ser.
E tem muitas irmãs... uma fila imensa de canções, cantigas... todas querendo ver o mundo aqui fora. Ficam batendo na porta e me dizem: "abra, por favor".
E eu, que perdida estou no meio de papéis, nesse grande palco da vida, ouço seus chamados e nem sei por onde começar pra deixar a música que mora em mim viver e voar.