terça-feira, 24 de novembro de 2009

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Letra para quem?

Outro dia acordei e me veio uma letra de música... um samba, vejam só. Não sou sambista, mas já havia recebido o recado de me chegariam letras e que eu anotasse imediatamente.
Assim, quando aquela letra de samba meio trágica me veio, obedeci e anotei logo.
Bem... depois, fiquei com o pensamento insistente de que deveria enviar para pessoas ligadas ao samba, pois era um recado para alguém.
Mais uma vez segui minha intuição e assim fiz. Mandei a letra para Tereza Cristina e para o Diogo Nogueira, através do Myspace.
Como a intuição me manda divulgar a letra, sigo meu coração e também a publico aqui...
Aí vai ela:

MEU AMIGO ZÉ
Zé meu amigo você se feriu
Caiu nos espinhos
Quase desistiu
Cadê seu chapéu?
Onde o escondeu?
A calça afinada
Que o Jura* te deu?
Não pense que é só
Dizer fui e ir
Aqui tem mais vida
Do que tem aí
Mas venha na hora
Que for convidado
Talvez pela dor
Não pelo machado
Zé meu amigo
Fique um pouco mais
E faça um samba
De dor e saudade
Mais vale um samba vivo
Que um sambista acabado
_____________________________
* Jura ou Juca, não sei ao certo
____________________________________________________SOBRE A VIDA

A vida não é rasa
Deveras se apresenta de fininho
Como o fino sentimento
Que transpassa o peito
Num poema, canção, deleite de momento
Um quadro, cor, paisagem
Uma palavra solta
O vento

A vida não é rasa
Rasga, rompe, quebra, fere
Grita, corta, mata, abala estruturas
Livra a água da amargura
Em diques fechados nos olhos
Com soluções de temporais e raios

Alaga a terra seca
Invade mata a dentro
Persegue os bichos-coisas-gente
E morde o rabo dos tementes

A vida nunca é rasa
Mesmo quando pinga
Mesmo quando racha
Mesmo quando é pouca
Quando tão sem graça
Quando tão sem dentes
Quando aquela praça
Já não tem criança
E aquele céu não tem mais pipas

Não é rasa
Ou reta como linha
Não é pouca
É sua e minha
È uma flor
E faca
Não é coice
É pata

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Seduções do Poder


De repente vem um pensamento invasivo
De que tudo deve ser como você quer
Ou então...
E são feitas mil promessas de vingança
E auto flagelos
Múltiplas formas de exercer o poder
E a decisão é premente
Seguir ou não o caminho do domínio
Em que o outro é terra conquistada
E todos são servos e mais nada?
As células do corpo pedem o comando
E vão seguir o rumo escolhido
Seremos ditadores no desejo?
Seremos libertários da vontade?
Subiremos ou não ao trono?
Carregaremos ou não a coroa dos inquestionáveis?
Nosso organismo quer saber
Se deve enrijecerE doer
Para dar conta do poder acima de tudo
Porque é preciso ser duro para não ceder
É preciso controlar cada músculo
Para não demonstrar fragilidade
E esse é o preço do comando absoluto
Reter emoções? Sim senhor, obedeço
E lá vai o intestino impedindo o fluxo dos excrementos
Que se acumulam, mal cheiram
E contagiam tudo por dentro
Não demonstrar fraquezas?Sim senhora, é pra já.
E o pulmão retém o ar
Até quase não poder mais
È pra trancar tudo na raça?
Pra isso dá-se um jeito...
E o estômago diz sim
E devora a si mesmo
O poder desmedido
Tem seduções disfarçadas
Chama-se de brio, orgulho próprio
Defesa de território
Mas quando vemos a carteira
Sua verdadeira identidade
Chama-se pobreza de alma
Decisão mesquinha, vaidade
É preciso a cada dia
Ter nas mãos um remedinho
Feito de coragem, simplicidade e carinho
Porque é o poder absoluto
Que no fim do filme...
Mata o mocinho

Buquê

Buquê



Não mais confissões de culpa
Alma aberta ao julgamento público
Livro da vida escancarado
Para quem quiser ler

Os mistérios particulares
Estejam claros
Tudo revelado no espelho
Diante de meus olhos

Apenas eu
Nua
Tocando meus segredos
Como pétalas de flor
Flor pequena do caminho
Flor rara da montanha
Maria sem vergonha
No meio da estrada

Nos Alpes intocada
No centro da floresta
Vitória régia
Flor da noite no jardim


Todas eu
Nuances da vida que carrego
Na pele, no centro
Submersas ou não

Todas ali dispostas
Ao querer e a nada mais
Abrindo-se ao sol do meu olhar
Sem medo nenhum de existir

A quem me darei vitória régia?
A quem maria sem vergonha?
Quem me tocará flor da noite?
Quem virgem na montanha?

Quem me virá sol
E me espalhará vento
No campo imenso
Das inúmeras possibilidades?

Eu me virei sol
E me espalharei vento
E serei um campo imenso
Onde me colherei buquê

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

o sonho


(Sebastião da Gama )


Pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos, pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.

Basta a esperança naquilo que talvez não teremos.

Basta que a alma demos, com a mesma alegria,

ao que desconhecemos e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?

Partimos.

Vamos.

Somos.


(esse poema nos foi enviado por Guilherme Medina)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

OLhos azuis da morena triste


Mari Mari

Velhos Brasões

Olho de longe
Do outro lado do arquipélago
A bandeira tremulando
O brasão de prosa e poesia
O hino tocado em viola
Seu território
Tudo para desbravar
Mas com moderna capital

Eu no alto do monte
De minha cercada ilha
Feita de prosa e poesia
Bandeira a meio pau
Por uma perda a mais
Fúnebres costumes
Que talvez eu vá romper
Mas por enquanto não

Ilhas e ilhas
E para nós tanto faz
Nascemos assim
Fechados em concha
Fincando bandeiras
Marcados à ferro
Pelo orgulho e loucura
Dos velhos brasões

Pensar é transgredir - Lya Luft

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos. Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido. Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo. Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!" O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação. Sem ter programado, a gente pára pra pensar. Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se. Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto. Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida. Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar. Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo. Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos. Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada. Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado. Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança. Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade. Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for. E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.