quarta-feira, 29 de dezembro de 2010




Parece incrível que eu chegue ao fim do ano

E deseje sonhos ao avesso:

Que um vento sacuda o interior das coisas

E borre a maquiagem dos falsos sentimentos

A verdade é que eu desejo que venha à tona finalmente

A lama
E que as partes turvas mostrem o que são

Nem límpidas, nem boas, nem leves

Parece duro desejar que a verdade se mostre

Nua e crua, sem dó nem piedade

Mas que seja ao menos algo que se possa ver
Nada de emoções falsas
Rostos amarelos

Vincos no lugar de sorrisos

Disfarçados

Assim posso dizer não
Isso não quero

Por aí não vou

E depois virar as costas e nunca mais voltar

Para um feliz ano velho

sábado, 19 de junho de 2010

adeus pra nunca mais


acredite

existe adeus pra nunca mais


o tempo

embora volte

não tem o mesmo rosto

embora novo

possui outro perfume

outras linhas

que ganhou na curva da mudança


acredite

existe adeus pra nunca mais


pois um segundo não é igual a outro

e o que foi agora mesmo

jamais retornará igual


despeça-se deste poema

pois mesmo que volte a ele

amanhã ou outro dia

o nada ou tudo que significou

Não estará mais aqui


Na medida em que acreditar neste adeus

viva intensamente

para não reter em lágrimas

Aquilo que passou


O que tem dentro da flor



Tem um tendão em riste
Gravado na semente triste?
Tem a carne da pluma
Ou a memória da bruma
Tem uma história louca
Sobre a vida tão pouca?
Tem um desejo ardente
Sob a pétala temente?
Tem a promessa insana
Do chão para onde vai
Tem um suspiro de mãe e pai?

O que tem dentro da flor

A mesma beleza e capa?
Tem futuro e mapa?
Uma promessa vindoura
Um soro de vida eterna
Morte rápida e sorridente
Um deleite passageiro
Um estaca fincada?

Dentro da flor tem nada

Que não caiba em um segundo
Nada que não seja uma pergunta
Nada que não viva

Para morrer ao vento

sábado, 27 de março de 2010

Minha amiga
O Tempo
tempo
O horizonte



Minha amiga
O vento
vento
O monte

estavam ali
e agora onde estarão

ficou apenas o gosto
esse gosto fascinante
de imensidão

Poema de Amor

Levei tempos a tecer e embalar
Em papéis perfumados
E laços de cor
Um lindo poema de amor
Foi tanto carinho e dedicação
E depois dias de janela
A espera do carteiro e a resposta
Pois um dia lá vem ele
Pela rua assoviando
Desalmado
Me entrega um pacote amassado
Um carimbo imenso
E nele escrito
Endereço inderteminado!
O meu poema de amor
O laço de fita de cor
E o papel perfumado
Voltaram para o meu lado
E o endereço, seu carteiro, não estava errado!

Marina Colasanti - A BUSCA DA RAZÃO

Sofreu muito com a adolescência.
Jovem, ainda se queixava.
Depois, todos os dias subia numa cadeira, agarrava uma argola presa no teto e, pendurado, deixava-se ficar.
Até a tarde em que se desprendeu esborrachando-se no chão: estava maduro.


Contos de amor rasgado-REcord, 2 ed, REcord, RJ-SP, 2010

(enviado por minha amiga querida Eliana Pichinine. Obrigada!)

voz na pele, pele na voz

Escorra sua voz em minha pele
com invisíveis mãos
e línguas
e silenciosos termos
escondidos nas palavras
Deslize devagar a sua voz
entre as idéias boas que me contará
coisas que fez
não fez
ou ainda fará
Alongue sua voz em torno de meu corpo
e fale por horas a fio
palavras, poemas, canções, histórias
coisas pequenas do dia-a-dia
Eu ouvirei sua voz em cada nuance
todas as pausas da respiração
todo o segundo de tempo suspenso no silêncio
entre uma frase e outra
E minha pele terá seda, linho, brisa
calor e carinho
enquanto escuta quieta
a sua voz

sábado, 13 de fevereiro de 2010

música música música

Morei em você
Você era meu ninho
Voei de você
Como um passarinho

Inventei novo rumo
Entendi que era pra meu prumo
Fiquei lá no céu
Não tinha onde pousar
Nuvem nenhuma pode ser meu lar

Estava longe
Chovia sobre mim
Não houve jeito
De voltar para o fim

Estou lá longe
Corro atrás do sol
Do sul ao norte
Procuro o meu atol
A ilha do farol...