quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Vamos falar


Vamos falar!






Vamos falar
Vamos falar
De tudo que seja preciso
Com riso
Com medo
Sem tempo
Sem prazo
Sem graça
Com graça
Vamos conversar
Em japonês
Em alemão
Na língua do p
wir sprechen uns
Do jeito que for
Parlare
Parlare
Vamos falar
Enquanto vivemos
E não amanhã
Amanhã eu não sei
O que será
Quem sabe eu não esteja mais aqui
Quem sabe em que lugar

Vamos hablar 
p-va p-mos p-fa- p-lar
Do jeito que der
Truncado, confuso
De olhos fechados
Com frio nas mãos

Daquilo que vale
De tudo que importa
Do que desentorta
A nossa ilusão

On va parler
Vamos falar
Antes que o silêncio
Venha nos buscar
Let’s talk agora
Antes que o silêncio
Esteja lá  fora
E chegue a hora de calar




MArielza Tiscate

Corpo de Flor


Corpo de flor




Arrepios
A casa vazia
Um corpo na cama
Perfume de flor

Imagino
Sussurros contidos
Lençóis embolados
Corpos  perdidos

E achados

domingo, 23 de janeiro de 2011

Sobre as coisas impalpáveis

Sobre as coisas impalpáveis






Basta acontecer
Não importa onde
Desde que atravesse o nada
Sem ser convidada
E se chame memória
Na pele tatuada
Transparente tanto quanto
Um pensamento na cabeça
Que, impalpável, pulsa o dia
Por incrível que pareça

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O mundo, segundo o menino

Eu experimento o mundo
Com a boca
Eu vejo o mundo
Com as mãos


Provo, sinto
Cuspo
Engulo
Só assim eu sei que é quente e frio


Quando é frio, esfrego
Quando é quente, assopro
Quando espeta, cuido
Quando afaga, fico


O mundo é uma meleca
Com a qual faço uma bola
E enquanto enrolo penso
Pra que serve  esse lugar?


O mundo é uma música pra dançar


Não ria
Isso é pura filosofia
Não ria
É melhor que a sua teoria


De que o mundo é um lugar
Pra vencer e dominar
Pra vender e comprar
Para ter e aparentar

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Sem saber

É sobre você
mas não saberá


É com você que sonho
mas não saberá


É por você
o meu olhar feliz
mas não saberá


É pensando em você
que os pés caminham
mas não saberá




Ficará na dúvida
mas não saberá


Indagará ao espelho
mas não saberá


É ao adormecer
que me encontrará




Que incólume permaneça
esse inconfesso sentimento


Que a reciprocidade não se revele
pois nenhum de nós [dela] saberá




Eliana Pichinine - www.versoseanversosfotogenicos.blogspot.com

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Vida do amor


Minha fé no amor
É um pé de maracujá
Rastreando o chão
Em busca de algum lugar
Onde possa dependurar
Os frutos

Olho pela janela
Vejo que ele espicha
As opções são poucas
O mato cresce ao redor
Vem o cachorro e mija
A lagarta come

Maracujá de quintal

E o futuro cheiro inebriante da fruta
Mora nas sete folhas e três brotos
Que conseguem sobreviver

Sete folhas e três brotos
Entre a vida ou a morte do amor

Texto bacana

Marla de Queiroz (blog: http://doidademarluquices.blogspot.com/).
Um ano novo!

O que eu desejo para o novo ano é suavidade. E um bocado de alegria. E desejo também perdão: a mim mesma que sou passível de erros, mas que não preciso e não devo viver mergulhada na culpa. Desejo também carinho: uma alma acariciada fica doce, desvendada, amorosa. Desejo coragem, porque o medo paralisa e impede a melodia nova e é preciso arriscar para continuar (re)criando harmonias. Desejo muita inspiração, porque as palavras sempre me fizeram a companhia mais maciça para a solidão genuína que sinto. E foram elas que consertaram muitas dores ao longo da minha caminhada, coisas que só pude curar investigando, compartilhando, tendo aqui meus cinco dedos de prosa com vocês. Desejo um pouco de disciplina, pois um ser criativo precisa de rebeldia, mas também de horários e planejamentos. Desejo desapego pelas pessoas, mas um pouco mais de ambição material porque ninguém sobrevive apenas de metafísica. Desejo maturidade. Quando se tem maturidade, dá-se melhor o valor que tem cada coisa, sem supervalorizar o que é irrelevante ou subestimar um pequeno aprendizado. Desejo muita paz: um coração sossegado entrega-se com mais confiança. Desejo saúde e disposição. Desejo proteção espiritual. E desejo continuar sendo merecedora dessa boa sorte de falar e poder ser atentamente ouvida, de calar e ser respeitada, de amar e ser correspondida, de atrair pessoas de coração bom e muita sensibilidade, e de poder descobrir a cada dia que a verdadeira erudição está na simplicidade.

Não mais assim


Sabes que és uma flor pequena no deserto?
E que isso em nada desfaz teu encanto
Andar à esmo e achar-te
Tal presente não tem preço

Sabes que existe um deserto, pois não?
Aí fora, além das árvores bonitas?
Sim, há
Pequenos e grandes
De todos os tipos

Por trás de paredes pintadas
Olhos maquiados
Perfumes importados

Sabes, não sabes?
Dentro de carros blindados
De belas vitrines
Dos jardins floridos
Ainda aí...

E saber que és uma flor pequena
Me alegra
Que não queres ser uma das raras
E por isso mesmo
És

Sabes que és do tipo raro
Porque num deserto
Nunca nascem flores

Até que resolvestes
Que não seria mais assim

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Ponto Final

Não tenho mais poesia

Sou linguagem e desencanto

Sem melodia

Não escrevo enquanto sinto

Não vejo ponte entre encantos

Daquilo que nunca foi entendido

De forma alguma


Não quero falar de outra maneira

A não ser dizendo com todas as letras

Sem arranjos, nem pinturas

Virei cartesiana

E se me quiser

Vai ter que vir e pegar

E talvez, sim,

A resposta seja não

Porque nem todos os dias

Em que a surpresa me chama

Posso abrir a porta

Pode ser que nesse dia

Você venha

E eu tenha partido para dentro

Um lugar no centro

Inacessível a todos

Mas se não vier

Se não tentar

O único ponto que vai restar

No inexistente poema

É este

Final.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010




Parece incrível que eu chegue ao fim do ano

E deseje sonhos ao avesso:

Que um vento sacuda o interior das coisas

E borre a maquiagem dos falsos sentimentos

A verdade é que eu desejo que venha à tona finalmente

A lama
E que as partes turvas mostrem o que são

Nem límpidas, nem boas, nem leves

Parece duro desejar que a verdade se mostre

Nua e crua, sem dó nem piedade

Mas que seja ao menos algo que se possa ver
Nada de emoções falsas
Rostos amarelos

Vincos no lugar de sorrisos

Disfarçados

Assim posso dizer não
Isso não quero

Por aí não vou

E depois virar as costas e nunca mais voltar

Para um feliz ano velho