segunda-feira, 14 de março de 2011

Eu meu será

Quando algo me sente
Tão forte, de repente
Que penso me afogar
Deixo vir
Deixo que vá
Não será o fim
Não será

Quando algo me engole
Tão novo, inocente
Que vejo o risco de quebrar
Deixo ser
Deixo chegar
Não será o fim
Não será

Que venham
As garras e unhas
Que cravem a carne
Sem contudo me acabar

Pois sou mistério mais profundo
O fundo do fundo
O fim do meu será

Carne de Flor

Você vê minha alma
Como nunca para mim
Vi
E tanto desfaz enganos antigos
Como se jamais existiram

Ela pensa que é primavera
Pensa que é sol
E chuva
E mostra a carne de flor

Está dormindo
Não a desperte
Sonha que mora
Em seu jardim

Dentro do Coração


Dentro de mim mora um filme
Com atores, cenas, paisagens
E também quadros na parede
De cores trágicas
Desenhos leves
Brancos
Transparentes

Moram duendes sem nomes
Fantasmas que arrastam correntes
Moram meninas cantoras
que choram

Dentro de mim
Um salão de baile
Príncipes de contos de fadas
Porões onde estão trancados

Moram livros e livros e livros
cantos, cantigas, canções
Tambores e mulheres de saia
Que rodam e riem

Dentro de mim
(e não saem de lá)
moram as partes que faltam
Do que me faz inteira

Sairiam
Se eu descobrisse
Qual a poção mágica que se usa
Para fazer crescer outras vez
Asas que foram cortadas
Para impedir o vôo

Me disseram que a chave do mistério
Está guardada num baú
No plano de fundo do auto retrato que fiz
Há mil anos atrás quando me avisaram
que eu era uma menina má

domingo, 13 de março de 2011

Direito autoral

Outro dia, numa roda de amigos, uma delas me falou com espontaneidade... "minha amiga adora seu CD para crianças... ela fez uma cópia do meu e seus filhos adoram."
Vi no seu rosto com clareza a total falta de má intensão sobre o assunto.
O raciocíonio que justifica isso é: se a amiga tem um aparelho que copia CD, por que não usá-lo? Se ela não tem dinheiro para adquirir ou se não tem tempo para sair e comprar, qualquer coisa assim, por que não copiar?
O problema é que o resultado, no meu caso, de ações assim é a diminuição catastrófica das minhas possibilidades de venda e de viver dignamente do meu trabalho com a música.
(E essa batalha não se resume a isso, saibam...)
Olha... assunto delicado...
Se você quer ouvir uma música, antiga, por exemplo, e  não há mais CD disponível, se existe mas é de difícil acesso... e se você tem acesso a programas e sites que baixam músicas na hora... por que não fazê-lo? É o pensamento atual.
Não fazê-lo porque aquela música não lhe pertence enquanto você não tiver direitos sobre ela. Nesse caso os direitos são dados por compra ou cessão, na forma da Lei. Pense antes: o artista, autor dessa obra, me deu ou cedeu para que eu possa usufruir? Se a resposta for não, force mesmo uma grande barra, nade contra a correnteza, seja ovelha negra, alvo de piadas... tenha coragem de parecer obsoleto, mas não use o que não adquiriu por direito.
Não use. Não ouça. Não copie.
Pense consigo: isto não me pertence, não posso ter ou usar.
Difícil, não?
Uma corrente que, fortalecida, na ponta, vai diminuir os casos de outros, em outras áreas, que dizem: eu preciso do que é seu, você não quer me dar, então eu pego à força.
E isso pode levar sua vida.
E tem levado.
Saiba com mais precisão aquilo que é seu e o que não é.
Não usufrua daquilo que não conquistou por direito, simplesmente porque isso não é uma maneira que nos leva a um estado de direito para todos.

Eu vou me esforçar a partir de hoje a falar e fazer o que digo.

Abraços!


sábado, 12 de março de 2011

Nada Sei

Uma menina
Do outro lado
Do mundo de ninguém
Pensa em ser amada
Ou talvez tocada, quem sabe?
Ela não sabe
Se isto é muito
Ou pouco

Uma mulher
Afogada no raso
De um nada sei
Vai pra esquina
Da sala de casa
Levanta a saia
E o dedo
Pega carona
No primeiro carinho
Que vier
Não pergunta porque
Não pensa em saber
Não aprendeu a perguntar
Abaixa o olhar
E agradece
Um cafuné
Um segundo de (má) atenção
Depois vira pro lado
E dorme no chão

Nunca Sei (Pensando no amor)



Vejo escorrer
Presto atenção
Gota de chuva no vidro da janela
Outra e outra
Sem parar...
Penso em partes de você
Quase reveladas
Quase que as bebo
E então somem-se em
Outra e outra
Uma só...
Nunca sei
O começo ou o fim
A não ser que eu abra a janela
E se abrir
Será você ou eu
Na água do desejo?
O céu desabando
De desejo
Pele molhada de quem?
Chuva ou suor?
Nunca sei
O começo ou o fim
Se é você
Se é em mim
Penso pra me consolar
Que ninguém
Nunca saberá

quinta-feira, 10 de março de 2011

Suave Coisa

não sei verbalizar
o abismo

sei cair
dentro dele
como dois olhos que eu avisto e temo

e o chão se demora -
amor -
a tocar meus pés 


Poema de Mariana Botelho
www.quelevequenada.blogspot.com

Longe

Longe
 

A chuva forte, o resfriado
real ou fingido, e eis-me livre
da escola e solto no meu quarto,
nos lençóis, nos mares de Chipre
ou no salão de Ana Pavlovna
ou no de Alcínoo, nas cavernas
de Barabar ou sob a abóbada
de Xanadu; perplexo em Tebas
e pelas veredas ambíguas
do sertão do corpo da língua,
cada vez mais longe de escolas
e de peladas e de bolas
e de promessas de futuros,
é mesmo errático meu rumo.
 
 
Poema de Antônio Cícero
www.antoniocicero.blogspot.com 
 
 
 

sábado, 5 de março de 2011