From the series "Women Unusual" - Part 1
Woman in love
Vingança por amor/Revenge for Love
Juro que desejo falar desse furor louco que me acometeu a mente, até agora tão equilibrada: a
vingança por amor.
E nem quero saber dessa coisa de juízo de valor. Não me
venham com aquelas palavras mansas na tentativa de me doutrinar. Sou uma mulher
apaixonada em fúria e fogo e tudo o que eu quero agora é me vingar da ausência
obrigatória, da falta de escolha, desse silêncio orgulhoso ou sei lá de que
tipo, que me obriga a engolir todo e qualquer sentimento. Até mesmo essa
desventurada força súbita de me vingar contra o tempo.
É. É isso mesmo. Estou
com ódio mortal de nada mais nada menos do que o tempo. E me sinto o próprio
Don Quixote com essa lança enorme esbravejando contra o que, eu nem sei.
Porque
não posso dar na cara dele, não posso rasgar sua roupa, não posso riscar o
tempo da minha agenda de telefones, não posso deletá-lo do facebook, bloquear
seu e-mail.
Não me peça para explicar em detalhes, porque não vou, qual
a razão dessa minha ira contra o tempo.
Mas, saibam, tenho um motivo
fortíssimo que é a paixão.
Eu estou fervendo, em ebulição, de paixão louca. Se
não bastasse ser paixão, ainda é daquelas que comicham, que ardem, que deixam
manchas vermelhas na pele. Então, a culpa disso é do tempo, que não se dá a
todos com a mesma igualdade. Que reserva-se para uns em longos minutos, ou
horas, dias, meses, anos e para mim, nada ou quase nada.
Estou terrível e profundamente magoada com ele.
Porque me pune. Sei lá exatamente porque, mas me pune. Simplesmente isso.
Devo ter um tipo de culpa no cartório daquelas que não estão no altar, salvas pela crença. Ela está largada na sarjeta, jogada às
moscas e não há ninguém rezando por ela.
Porque deve ser uma autêntica culpa,
já que o tempo não me reserva a não ser segundos tão, mas tão fugidios de
paixão, que quase enlouqueço tentando prendê-los ou esticá-los.
Que ódio estou
do tempo.
Que ódio.
E foi ele, e só ele, sem respeito algum aos apaixonados, que,
não satisfeito, inventou até mesmo o fuso horário (só para contrariar o desfuso horário dos que amam loucamente).
Odeio de morte o fuso horário.
Aos pequenos, menos. Os acima de quatro horas, quero
matá-los todos e picá-los para misturar com a ração do meu cachorro.
Será que se o mundo fosse somente uma metade do que é hoje, isso
tudo já não estaria resolvido? Por que dar uma volta inteira, 360 graus, se 180 já
causaria muita dor evitável aos amantes?
Mas não. Tinha que ser isso, essa longura
dessincopada e eu aqui mordendo a fronha, roendo unhas. Irada.
Mas, me digam, como vou lutar contra esse inimigo feroz e
contra a sua altivez?
Somente no dia de hoje já fiz planos dos mais
mirabolantes.
Pensei em mostrar uma foto sexy minha, sorrindo, para mostrar a
ele que eu nem ligo. E que posso muito bem ficar sem quem quer que seja e
feliz. E mais: que posso rapidamente substituir uma coisa interessante por
outra e esvaziar a gozação desse tal dono do mundo, senhor dos ponteiros
mundiais!
Juro que tentei e não só tentei como fiz. Fiz isso. Peguei a foto
mais sexy e de pernas de fora que tinha e postei em tamanho gigante na rede
social. Logo apareceram os que sacaram a deixa, óbvio. A foto era mesmo bonita,
gostosa, insinuante e sexy. Mas, eu sorri vingada por quanto tempo? Por alguns
minutos apenas. Porque nem mesmo se um ator ou cantor ou seja lá o que mais,
gostoso, inteligente ou ambos ao mesmo tempo, entrasse e me convidasse para um
vinho particular eu não iria. Eu brocharia! Porque o que eu mais queria... o
tempo escondeu sei lá onde, em que maldito canto debaixo do seu tique taque.
Então pensei coisas piores a fazer. Sair da rede mágica e ir
pra rua, marcar um encontro pele com pele, paquerar
numa festa imensa, vestir uma coisa provocante, tomar vinho até sentir um
torpor tal que não me lembrasse mais a razão da vingança ou mesmo que estivesse
me vingando por qualquer coisa.
Mas, que nada.
Não arredei pé.
Fiquei à espreita de uma trégua.
E Nada.
Nada.
Até agora, nada.
Só esse silêncio mau.
Esse silêncio ofensivo e sereno.
E essa cor cinza que vai me tomando quase toda até aqui,
restando somente uma ponta dos meus olhos ainda esperançosos olhando para o
relógio.
Lugar onde meu inimigo se aboletou e dali não sai.
Fim
(Translation into english soon)